edição 37 | outubro de
2009
rima pobre 100 gotas de novalgina
e o fogo indo e vindo
indo e vindo pela testa
o mar de dentro Ondas
se levantavam ameaçando engolir o pequeno veleiro que buscava o porto,
mínima luz que mal se divisava ao longe, lá. Ondas, ondas e meus olhos
arregalados, cheios de medo e desejo. Eu tentava descobrir o que estaria
escrito nos olhos do homem atracado ao leme do veleiro, ansiando ansiando
o porto. Mas ele era quase nada no meio das ondas todas enormes e nos
roubando o ar. Essa
era a minha primeira lembrança saindo do nevoeiro da infância. Uma gravura
amarfanhada, carregada em tons escuros, numa página envelhecida e rasgada
nos cantos, perdida num livro que pertencera à minha avó. Na noite em que
vi a gravura sonhei que era eu agarrada ao leme, enfrentando toda a fúria,
aos gritos que só se acalmaram quando a mão de minha mãe pousou na minha
testa. Ela permaneceu sentada a meu lado, até achar que eu já me acalmara.
Só mais tarde percebeu que nunca mais me acalmei. Desde
essa noite passei a ter um único sonho. Não enquanto dormia, o sono era
tranquilo e dele eu não trazia nenhuma recordação ou angústia. Mas assim
que abria os olhos e até fechá-los novamente sonhava conhecer o mar.
Meu
pai ria um bocado quando eu começava com o que minha mãe chamava de aquela
lengalenga insuportável. E a família toda acabava rindo com ele. Eu sorria
um pouco também. Mas meu problema era grande, cada vez mais eu me dava
conta disso. Como achar uma saída para o mar? A família era pobre, o livro
de minha avó o único da casa e ninguém lhe dava a menor importância. O
lugarejo onde vivíamos era o bairro mais esquecido de uma cidade
esquecida. Tentei catar outros livros e jornais mas ali tudo isso era raro
e todos continuavam rindo. Afinal o que queria aquela menina esquisita
sempre com perguntas esquisitas? Também procurei saber das histórias de
quem havia saído de nossa cidade. Mas descobri apenas que os que saíam
jamais voltavam e os que ficavam não gostavam de tocar nesse assunto.
Não. Achei
um dicionário na escola e lia nele tudo que encontrasse sobre o mar.
Acabei roubando-o e escondendo em casa. E ninguém percebeu ou sentiu
falta. Vários dias eu faltava às aulas para ficar lendo. Meus irmãos
começaram a me evitar e minha mãe mais de uma vez me bateu ao me
surpreender enfiada num canto qualquer com o dicionário. Numa tarde, ao
desconfiar que novamente eu não fora à escola e ficara lendo escondida,
pegou o livro de minha avó no armário e rasgou o mais que pôde,
amaldiçoando a triste ideia de sua mãe — guardar na casa uma porcaria como
aquela que agora destrambelhava a neta, como uma maldição herdada. Por
sorte não encontrou o dicionário e eu pude salvá-lo. Naquela noite algum
cano que passava por trás do armário arrebentou, causando uma pequena
inundação no quarto. Levantamos todos para tomar as providências contra o
aguaceiro e constatamos surpresos que era uma água salobra como nunca se
tinha visto por ali. Fiquei acordada até o amanhecer. Eu já não era mais
menina. A
gravura permanecia nítida na minha mente, nem precisava fechar os olhos
para vê-la. Passei a andar pelo bairro catando pedaços de madeira, tijolos
velhos, todo tipo de tralha abandonada. Com esse material um tanto
disforme tentava construir coisas que eu imaginava que habitariam o mar.
Escondia tudo num canto abandonado nos fundos do quintal de casa. Mas meus
irmãos mostraram para os pais a minha nova loucura. Minha mãe tornou a me
bater, quebrava o que podia, tacava fogo em tudo que achava. E quanto mais
ela batia e tacava fogo, mais eu saía pelas ruas à cata de novas
matérias-primas. Ou lixarada, como ela dizia. Pela cidade se espalhou meu
apelido, marinheira doida, para desgosto de minha mãe, que foi me batendo
menos e menos, até desistir por completo. Também foi desviando os olhos e
a boca e me dirigindo cada vez menos a palavra, assim como meus irmãos. Só
meu pai ainda sorria, às vezes. Foi
o tempo de sumir da escola, da igreja e das amigas — poucas, com minha
fama de doida. Tempo de aprendizado. Ia até o pequeno mercado do centro da
cidade e ficava olhando os poucos peixes de rio à venda, quase sempre sem
compradores. Fiz isso tantas vezes que me perceberam e acabei expulsa de
lá, talvez confundida com uma possível ladra. Minha professora chegou a ir
lá em casa e aconselhou a família. Na cidade vizinha, maior, havia um
hospital onde poderiam me examinar. Ninguém lhe deu atenção. Ela nem sabia
que eu ainda ia à escola, só que durante a noite, para roubar papel e
lápis, que escondia sob uma pedra atrás de uma árvore nos fundos perdidos
do quintal. Passava os dias no canto mais esquecido desenhando conchas com
suas formas e várias voltas, arredondadas ou achatadas, sereias sobre
rochedos e marinheiros encantados por elas, todo tipo de embarcação, desde
as pequenas canoas que vira em desenhos até navios maiores, para
transportar o que eu nem sabia mas já supunha, e mesmo submarinos, que eu
nem tinha ideia de como seriam, só vira no dicionário como se escreve. E
os peixes. Traíras, sardinhas, robalos, pintados, linguados, atuns,
namorados, badejos, piranhas, corvinas, espadas, bagres, tilápias,
garoupas... Depois cavalos-marinhos cavalgando estrelas-do-mar. Esguichos
com baleias embaixo. E terminava sempre com as ondas, ondas que nasciam
donas e imensas, escoiceavam sobressaltos e violências e pavores,
ameaçando os homens grudados no leme, grudados nos mastros, arrastados na
água salgada. E eu era todos aqueles homens, com o medo atracado no
coração, rezando por suas vidas e jurando que onde não há barcos os sonhos
se esgotam. Mas
chega uma hora em que as histórias que contamos também se esgotam e se
afogam, sem forças para seguir adiante. Não tendo chance de ir em busca do
mar, decidi construí-lo no quintal nos fundos da casa. Já tinha meus
desenhos como moldes para iniciar o trabalho. A essa altura minha mãe e os
irmãos me tratavam como uma estranha, limitando-se a cumprimentos secos de
manhã e de noite. Meu pai, que sempre fora um homem de muito poucas
palavras, ainda sorria um quase nada para mim. E eu só saía de casa para
catar meus tesouros. Fiz até um carrinho de mão para facilitar o trabalho.
No mais, passava os dias secando barro que se transformava em areia,
escavando pedras que viravam conchas, desfiando palhas que se tornavam
algas, colorindo plantas que lembravam corais, pescando e salgando os
peixes do rio. E por fim, maior desafio, construindo um veleiro. Mas se eu
ficava mais e mais desligada de todos, acreditando que não os importunava,
o bairro não pensava assim. Minha fama cresceu de tal forma que virei uma
atração turística para os adultos e um circo para as crianças. Mas nunca
dei importância à romaria nos fundos do quintal. Me lembrava do homem
grudado no leme e gritando entre as ondas que onde não há barcos... E
seguia debruçada no trabalho, com afinco, como quem crava os cotovelos na
murada de um barco. Não
me dei conta de mais nada em volta. Mas as coisas seguiam seus rumos, com
seus acontecendos. A mãe e os irmãos, que já não falavam comigo,
construíram um muro separando os fundos do quintal do resto da casa. Mesmo
sem palavras, minha mãe deixou bem claro que eu não era mais bem-vinda e
não deveria entrar na casa por nenhum motivo. Era cada vez mais raro ver
meu pai e seu diminuto sorriso debruçados no muro me espiando trabalhar.
Agora o que havia eram vizinhos com caras de poucos amigos, e as crianças,
que passaram a jogar pedras no quintal aos gritos de marinheira doida,
marinheira doida, doida, doida. Também ouvia vozes de estranhos grudados
ao muro, mas apenas seguia com meu trabalho e mesmo com as inúmeras idas e
vindas e voltas a que os erros me obrigavam, aos poucos meu veleiro ficava
pronto. Até
que comecei a ouvir o que diziam. Estava dando mais atenção a isso ou eles
é que passaram a erguer a voz? Sei que falavam de mim. Muitos se queixavam
por não conseguir dormir com o estranho barulho que se recusavam a crer
fosse das marés. As velhas senhoras me acusavam pelo silêncio dos
passarinhos nas gaiolas. As queixas aumentavam e já me hostilizavam em
plena luz do dia. Certa vez uma pedra me atingiu na testa, causando mais
um sangramento. Fui pedir às crianças que parassem com aquilo, tinha
certeza de que não faziam por mal, era só uma brincadeira, mas podia ser
perigosa. Os homens por perto incentivaram as crianças a jogar mais
pedras. Tive que me proteger no barraco que construíra e me servia de
moradia e depósito. Decidi
esperar a noite para trabalhar. E durante os dias daquela semana observei,
escondida, a romaria que passava diante do muro. Até que no domingo, em
meio ao vento e à chuva, a multidão apareceu, com meus irmãos à frente,
braços estendidos para o alto, carregando sobre suas cabeças algum objeto
de madeira. Conforme vieram na minha direção pude ver que se tratava de um
caixão. E depois que dentro dele estava o corpo magro de minha mãe. Meu
pai vinha atrás, cabeça baixa. Os passos e as vozes se aproximando, se
aproximando. Atrás do caixão, mesmo com o aguaceiro que despencava, eu
podia perceber o brilho das foices e dos facões, brandidos no ar
encharcado. Foi só o tempo de pegar a moringa de água e uma sacola com uns
poucos mantimentos catados de qualquer maneira, subir na embarcação e
zarpar. O vento batia forte, ondas se levantavam, ameaçando engolir o
pequeno veleiro. Atracada ao leme, quase nada no meio das ondas todas
enormes e me roubando o ar, seguindo os riscos amarelos que a fraca luz do
porto escrevia na pele do mar, eu parti. Sim,
escapei. E hoje vivo no mar. Continuo sonhando e também aprendi a
sobreviver, com a pesca, a estocagem da água, o enfrentamento das
tormentas e tantas outras tarefas. O barco já é outro, maior, mais forte,
também feito por mim. Não, não me acalmei. Conheci portos por todo o mundo
e ainda não encontrei o que procuro, a pequena luz que mal se divisava ao
longe, lá, na página envelhecida e rasgada do livro de minha avó. Em alguns portos já sou conhecida. É raro uma mulher fazendo o que faço. Me procuram nos bares dos cais para ter certeza que existo, me ver de perto e me ouvir. E também me contam histórias. Muitas vezes falam do bairro mais esquecido daquela cidade esquecida. Contam que depois de minha partida uma impossível maresia matou todas as hortas. Que nas gaiolas penduradas nos muros das casas os passarinhos apareceram mortos, as penas retorcidas, os olhos fora das órbitas. Que sempre às seis horas, quando o sino da igreja bate, um vento arenoso resseca os olhos dos velhos, tirando-lhes para sempre a visão. E que, por mais que se prendam os cachorros à noite, a cada manhã três deles aparecem afogados, os pelos cheios de areia, comidos por peixes, conchas grudadas nos olhos. Contam ainda que derrubaram o muro do meu quintal e todas as noites a romaria vem depositar velas nos fundos da casa. Rezando, esperam a minha volta.
ondas O
rádio ABC toca e toma conta da sala. A mesinha encostada na parede e
coberta com a toalha branca trabalhada em ponto de cruz tinha sido feita
especialmente para abrigar o luxo da família. Em cima do móvel as flores
de plástico balançam e o vento leva a voz para longe. Entretida, Alice mal
ouviu o grito da mãe: — Menina, larga esse rádio e vem encher os potes. —
Espera mãe, ainda não passou meu signo. Silêncio. A voz de Omar Cardoso
toma conta do ambiente. — Touro: O
Sol ainda transitando pelo seu signo está lhe trazendo muita energia.
Desejo de aventura. Maior disposição para correr riscos. Muita
autoconfiança. É hora para decidir pendências antigas. Período propício a
novos relacionamentos amorosos. A menina pensa e olha a vista da
janela com jeito de sonhadora. Levanta da cadeira e corre para o açude
atrás de casa e na pressa esquece de desligar o aparelho. No vão da
porteira encontra o noivo que vem da caça e se aproxima sorridente. Alice
para e, sem demora, diz: — Pedro, não podemos nos casar. Ele olha para a
moça aparvalhado e indaga,
por quê? — Não é por
nada não, apenas não te amo mais. Indignado o rapaz pergunta se gosta de
outro. Ela não consegue esconder o vermelho do rosto e sai correndo rumo
ao açude. O coração está leve e liberto enquanto afirma para si mesma:
Touro não combina com Peixes. Abaixa-se e de cócoras, toca a água. Pedro a
segue. Coração preso e pesado. Avista as costas da noiva e vê quando a
cuia é despejada na lata enferrujada. O pássaro canta. O tempo para. A
arma aponta. O fogo cospe. O tiro soa. A bala entra. Alice tomba. No rádio
a previsão do dia para o último signo do zodíaco. Peixes: A lua no seu signo intensifica
seus sentimentos e aumenta seu sentido de autopreservação. Dia bom para
negócios e a comunicação. Excesso de sensatez leva à estagnação e, se for
prolongado, à morte da alma... Alice ouve distante a voz de Omar.
Silêncio. O vento embala a água o sangue a
agonia.
![]() ©cristina carriconde
eu
gosto desta sandalinha de pelúcia. pelúcia verdadeira é muito gostosa de
pegar, sentir na pele. a falsa parece capacho, vejo de longe que é falsa
––––
eu tinha uma sandalinha de quarto linda, de pelica tingida de azul, toda
rendilhada, parecia renascença. bem fofinha por dentro, uma delícia.
comprei na sloper. eu adorava comprar sapato na sloper e na casa clark
––––
jandira trabalhava na sloper. no dia que nos conhecemos, heleninha pessoa
de queiroz estava lá comprando sapato também. nunca a sociedade
pernambucana terá uma mulher como ela. podre de chique. casou com um
menino que tinha idade de ser filho dela e ela nem aí. quando heleninha
saiu lá fui eu atrás com minhas sacolas, pegar vaga com ela no elevador.
aí jandira veio: dona cecy, posso falar com a senhora? o que é, meu bem?
dona cecy, por amor de deus, deixe eu trabalhar na casa da senhora. eu com
uma sacola em cada mão. heleninha foi embora e eu ali olhando pra jandira.
não aguento mais ver joanete de madame, dona cecy. e como ela sabia que eu
era eu? essas vendedoras sabem tudo. eu ia tanto lá e nunca tinha notado
aquela criatura. saiu das alagoas e foi parar no recife ––––
jandira quando foi trabalhar comigo, nas noites de receber os clientes
tirava os óculos, gente muito míope fica uma graça sem óculos, os olhos
meio sonolentos, perdidos. acho melhor ficar sem enxergar, dona cecy.
assim não escolho nem feio nem bonito. não se preocupe, meu bem. você acha
que vou lhe passar algum tribufu? então ela vagava pela casa meio
sonâmbula, jandira virou jeanine. jandira é nome de mãe de família, de
evangélica, de cobradora de ônibus. de puta fina não. era melhor trepar com jeanine do que com
jandira, os homens também pagam pela ilusão. jeanine nem precisava fazer
muito esforço, nasceu pra rapariga. os homens ficavam a noite toda com
ela, queriam dormir, namorar, conversar. pagavam o dobro pelo tempo.
branca, tão branca, com aquele cabelão preto lindo. zuleno fez um quadro
dela sentada nua num caixote, a torre malakoff e o mar por trás e miúdo
cochilando sobre as patinhas no canto do quadro. tá lá na minha sala junto
com os outros quadros ––––
jeanine foi minha última menina. um funcionário da embaixada americana
levou jandira-jeanine, casada de papel passado. teve três filhos. depois
da minha branquinha ir embora me aposentei com a idade que eu planejava:
cinquenta anos ––––
antes as pessoas entravam e saíam da minha casa. agora entram e saem dos
meus táxis. que coisa engraçada. eu tinha taxi-girls, agora tenho
taxi-boys, trinta marmanjos todo dia dirigindo minha frota pra mim
––––
que demora dessa enfermeira. faz meia hora que pedi meu
lanche ![]()
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