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edição 38 | dezembro de
2009
Tivera outras
daquelas discussões inúteis e intermináveis com Dona Vera sobre sua
condição de ateu. Compreendia que a insistência de sua colega de trabalho
devia-se mais ao amor que sentia por ele do que qualquer outra coisa. Era
uma senhora doce, ex-freira, não poderia admitir que um colega de
trabalho, tão querido, não tivesse a alma recuperada. Não, estando ele tão
próximo. Roqueiro por opção, não abria mão dos longos cabelos, tatuagens,
emblemas satânicos, chamavam-no El Diablo. Sendo o melhor advogado
do escritório isso não lhe causava maiores inconvenientes.
Era noite de
estreia, o palco não lhe causava mais o pânico do início. Tocava em outras
cinco bandas e, apesar da curtição, não esperava muito daquela noite. Como
baixista, nunca havia sido chamado no final do show para um solo. Dizia,
para justificar sua pequena mágoa, que era apenas o tocador de baixo.
Houve algo diferente naquele dia, entregou-se como nunca à música. Não
sentia os dedos nas cordas, mas ouvia cada batida de seu coração em
harmonia com o som que inundava seus ouvidos. Ele era a sua
música. Ao ouvir seu nome
para a apresentação do solo abriu os olhos pela primeira vez desde que
subiu ao palco. Foi sugado de seu transe e pôde ver, então, a plateia,
calorosa, Ao abrir os olhos,
identificou uma mulher no meio da multidão. Lenora vinha de branco,
elegantemente vestida, deslizava, abrindo caminho, suavemente, entre o mar
de gente à sua frente. Parou em frente ao palco, posicionou a câmera que
trazia pendurada ao pescoço e fotografou-o. Não tocou uma nota, mas ainda
gritavam seu nome, como se ele já tivesse feito tudo o que podia. Era o
guerreiro em morte gloriosa ao fim da batalha, o lutador que, exausto, não
consegue subir ao pódio para receber sua medalha. Mais tarde no bar,
apesar da euforia dos outros da banda, não reconhecia-se mais como parte
daquele mundo. Estavam todos felizes, cumprimentavam-no a todo tempo,
faziam-lhe reverências, que respondia com leve aceno de cabeça. Não
compreendia o que havia lhe acontecido. Avistou no balcão a mesma mulher
do show. Sem se importar em atender à euforia da banda, levantou-se e foi
até ela. — Alex, muito
prazer. — Lenora.
— Pago uma
bebida?!... —
Água. — Duas, por
favor. Soube que era
fotógrafa amadora, viajava pelo mundo na captura de momentos como aquele e
que tinha sorte de estar sempre na hora e no local exato. Destacava-se dos
frequentadores dali mais pelo olhar do que pelo figurino nostálgico,
clássico, inapropriado para a ocasião. Tinha de ficar, pela banda, mas não
se conteve. Seguiu-a quando
pagou a conta e saiu sem dizer adeus. Definitivamente,
morava na cidade ou vinha com frequência, era um apartamento bem montado,
grandes posteres fotográficos autorais decoravam o ambiente. Momentos
sublimes, homens e mulheres em entrega total, músicos, atletas, pessoas
comuns, fotografadas de maneira única. Subiu as escadas atrás dela e mesmo
estando a poucos passos atrás, ao entrar em seu quarto encontrou-a só de
lingerie, roupas caídas a seus pés. Desde o show, perdera a noção do
tempo, as coisas aconteciam como em saltos temporais, como se o
irrelevante fosse deletado de sua memória e, apesar de não compreender o
que se passava, sentia-se confortável. Ao acordar não a
viu no quarto, não lembrava o que tinham feito, mas conhecia bem aquela
sensação. A noite fora intensa. Vestiu um roupão deixado ali, pegou a
caneca de café fumegante à cabeceira e desceu. Parou em frente à parede no
fim da escada e deparou-se com um imenso poster. Era ele, no show, suado,
tocando, um dos joelhos ao chão. — Parece uma
oração. — Pensava a mesma
coisa. Como você... — Sou
rápida. — Não sou mais o
mesmo. Não posso continuar... — Eu sei, por isso
eu vim. As próximas noites
foram de tormenta. Não comia, nem bebia, acordava no meio da noite aos
berros, banhado Com o tempo, foi
melhorando, os pesadelos onde tocava em transe por horas, até a exaustão
foram diminuindo e não mais acordava a todos, no meio da noite, com seus
gritos desesperados. Foram meses, até conseguir circular tranquilamente
pelo pátio, sereno. Havia sido a conversão mais demorada, admitia o
velho. Não voltou a ver
Lenora, mas era ela, todas as noites, que aparecia em seus pesadelos, para
tirar-lhe do transe e trazê-lo de volta da tormenta. Sua conversão foi sincera, mas seu
olhar permaneceu triste e distante. No seu íntimo, sabia que a música o
seduzia, que queria intimamente voltar àquele lugar. Apesar de saber-se
puro em seu corpo, sofria pela alma que teimava Em pouco tempo era
o mais conhecido da região. Suas missas lotavam, seus sermões calavam cada
vez mais pessoas. E assim, seguiu por muitos anos. Suas palavras operavam
milagres, salvavam famílias, traziam de volta filhos desgarrados, que
vinham até ele, agradecidos, tocar-lhe as mãos. Nos últimos dias, pouco
antes de ser levado, teve aquele antigo pesadelo. O frenesi daquelas
visões, o palco, o público, o êxtase da música exigiu demais de seu velho
coração, mas Lenora apareceu a tempo. Enfraquecido, sabia
que teria de rezar aquela missa, pois seria a última. Apesar da tristeza
que o acompanhava, pois ainda reconhecia sua alma como perdida, sabia que
tinha feito o possível e que isso seria levado em conta ao final. Na hora
do sermão todos silenciaram. Ele deveria saber o que dizer, mas como
naquele show, sua voz não o obedecia. Era como se tivessem-no deixado por
sua própria conta. Teria de improvisar, mas não soube o que dizer.
Olhavam-no de
maneira estranha ao perceber seu silêncio prolongado, começaram os
cochichos, os risinhos, alguns olhares preocupados, o pavor tomou-lhe e
sua roupa não conseguia absorver todo o seu suor. Trêmulo, depois de um
grande esforço conseguiu falar: — Nunca. É verdade.
Nunca consegui domar minha alma, mas O servi mesmo assim... Por que me
abandonas agora no final? — Disse, caindo de
joelhos. Levantou os olhos e na fileira da frente reconheceu Lenora e o monge que o acolhera aquela primeira noite. Ficou confuso. Ela estava jovem e bela, como no dia em que a conhecera. Levantou-se e foi ao seu encontro. Ela estendeu-lhe a mão e aproximou-se de seu ouvido: — Ele nunca lhe abandonou, insistiu contigo por anos, noite após noite, mas eu sou muito, muito boa no que faço.
da mulher mais solitária do
mundo
Prometeu
que se casaria
com
o primeiro que batesse à porta. Foi com o entregador de pizza.
Às
treze horas do dia doze do mês de agosto de mil novecentos e cinquenta e
dois, nesta vila
de Torre Escura, na 2ª Delegacia Seccional de Polícia, onde presente se achava o Bel.
Fulano de Tal, Delegado de Polícia, comigo, escrivão de seu cargo, ao
final assinado, aí compareceu a testemunha Francisca B. (devidamente
qualificada). Aos costumes, nada disse. Compromissada na forma da lei,
advertida das penas cominadas ao falso testemunho, prometeu dizer a
verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado, e indagada, às perguntas
respondeu: que no dia 04 de agosto de 1952, estava em companhia do
suspeito, S. de tal, no bar situado atrás da Igreja de Santo Ignácio, onde
bebiam cerveja [absinto]; que
se encontrou com ele, casualmente, por volta das 15 horas [a tarde molhada e um pardal insólito,
que me olhava do meio-fio];
que permaneceram ali até por volta das 17 horas [estrelas num céu de meio-dia]; que
saíram juntos do local em direção à residência do suspeito [suas mãos colhendo mariposas em minha
cintura], que vem a ser um quarto na Pensão Majestosa; que no trajeto,
passaram pelo Beco dos Goyas, onde se encontraram com a vítima, a menor L.
de tal [de que cor seriam os seus
olhos?]; que a menina saltitava; que parecia que a menina pulava
amarelinha e carregava rosas [lembranças não recebem flores];
que a menina sorriu, digo, que a menina sorria; que a menina parecia feliz
[aquele jardineiro do mosteiro da
Áustria falou-me que pensamento e linguagem são uma e a mesma coisa]; que parou, juntamente com o
suspeito, para cumprimentá-la; que o suspeito mandou as melhores
recomendações ao senhor seu pai, o açougueiro Otto [os limites da minha linguagem são os
limites do mundo]; que
seguiram em direção à residência do suspeito, deixando a menina no local
[o que é a verdade?]; que antes
de sair do Beco dos Goyas, olhou para trás e viu a menina sorrindo para as
rosas [a função da linguagem é
descrever a realidade: se eu não contar pra ninguém, não aconteceu]; que a menina sorria e respirava;
que a menina, portanto, estava viva [o que não é a verdade?]; que
chegaram ao quarto da Pensão Majestosa por volta das 17h30; que ali
passaram a noite em conjunção carnal [o Vesúvio sou eu]; que permaneceu
no referido quarto em companhia do suspeito até o dia seguinte [a chuva na vidraça]; que na tarde deste dia seguinte
a depoente deixou o lugar em companhia do suspeito [o mundo consiste de fatos, meu
bem]; que o suspeito acompanhou-a até o Metrô, na Av. Paulista com
Alameda Ministro Rocha Azevedo, onde ficaram apreciando a Parada do
Orgulho Gay [o jardineiro, citando
Tolstoi: "Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira"]
até por volta das 19 horas; que, assim sendo, o suspeito não é o matador
da menina L. [Elementar, meu caro
Watson]. Nada mais disse nem lhe foi perguntado, lido e achado
conforme, vai devidamente assinado pela autoridade, pela testemunha, e por
mim, Fulano de Tal, escrivão, que o datilografei. (Ass.: Delegado,
Testemunha, Escrivão).
[Trecho
de uma história mais comprida]
canção de amor em ré Os
dedos nas cordas, a música desfolha. Eu
viola.
1 poema 1.
violão é uma cunha e uma serpente. 2.
no bandolim ocorre um choro desterrado. 3.
trumpete, sopro puro de aguardente. 4.
o violino se estanca no passado. (quarteto em sopro e cordas)
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